Projeto promove resgate da cultura musical indígena entre alunos do IFRR Amajari

por Laura publicado 10/05/2019 07h55, última modificação 10/05/2019 07h56
O trabalho de resgate ocorre tanto dentro da escola quanto nas comunidades. O grupo participante do projeto aprendeu a cantar e dançar o parixara com a ajuda de estudantes que ainda falam e cantam na língua materna

Localizado no norte de Roraima, o Campus Amajari do Instituto Federal de Roraima (CAM-IFRR) vem desenvolvendo, desde 2016, projetos de extensão na área de música, sendo um deles voltado ao resgate da cultura musical indígena entre os alunos indígenas, que representam quase 60% dos estudantes matriculados na unidade de ensino técnico e profissionalizante. Como resultado dessa iniciativa, a escola hoje conta com um grupo de parixara.

O trabalho de resgate, que ocorre tanto dentro da escola quanto nas comunidades, envolve a valorização da cultura musical indígena pelos alunos. O grupo participante do projeto aprendeu a cantar e dançar o parixara com a ajuda de estudantes que ainda falam e cantam na língua materna. As apresentações ocorrem em eventos da unidade de ensino, bem como são convidados a se apresentar externamente.

Entre as apresentações do grupo de parixara do Campus Amajari estão a que foi realizada no Lago do Caracaranã, no ano passado, durante as comemorações do Dia do Índio, e a que foi feita no próprio campus, durante a Semana do Índio, no fim de abril deste ano. Engana-se quem pensa que as apresentações ficam restritas às comunidades indígenas. Um shopping em Boa Vista e o Campus Boa Vista Zona Oeste foram alguns dos locais visitados.

A motivação de desenvolver o projeto é relatada pelo professor Lucas Lima como a forma encontrada de contribuir para o resgate e a manutenção da música e da dança dos povos indígenas, as quais, ao longo do tempo, vêm se perdendo. Na etnia macuxi, por exemplo, a maior de Roraima, poucos sabem cantar e dançar o parixara. E, com isso, aos poucos, a cultura ancestral corre o risco de desaparecer.

Além disso, conforme o professor, em festejos nas comunidades é comum ouvirem músicas dos karaiwa (brancos, não indígenas), como o forró, e não prestigiarem músicas e danças tradicionais, como o parixara, o areruia, o tipiti, o tukúi. “As músicas estão prestes a ser extintas, e da forma mais breve possível. Elas não têm transcrições, não têm gravações, não existe um trabalho de resgate”, analisou o docente.

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Alunos indígenas do Campus Amajari aprenderam a cantar e dançar o parixara

Observando o grande número de alunos indígenas presentes no CAM e preocupado em desenvolver conteúdo de aprendizagem que pudesse valorizar a cultura local, de modo a contribuir para manutenção das culturas indígenas, o professor começou a desenvolver o projeto de resgate no campus. A experiência também o levou a estudar mais o assunto, o que resultou em uma dissertação de mestrado sobre a valorização da cultura musical indígena tanto dentro do IFRR como no curso superior de Música da Universidade Federal de Roraima.

Para Lima, compreender e trabalhar a música indígena no Campus Amajari é fazer com que a escola conheça sua própria cultura e crie uma identidade voltada para sua realidade, oferecendo ao aluno condições para estar em contato com as tradições de suas comunidades, buscando sua valorização, promoção e preservação.

Ele explica que trabalhar com diferentes métodos de ensino não é uma tarefa fácil, mas que o professor tem de se adaptar ao contexto no qual está inserido e transformar alguns conceitos enraizados. No caso dele, a formação acadêmica era a música erudita, mas isso não o impediu de aprender e ensinar a cultura indígena observando o ambiente ao seu redor, não apenas na sala de aula mas também fora dela, por meio de projetos.

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Professor de música do CAM, Lucas Lima

“Quando abordamos o assunto sobre identidade cultural no contexto escolar, estamos envolvendo questões de valores que, para alguns alunos, são importantes e que marcam sua história. E, para muitos, que são fortalecidos pela globalização, trata-se apenas de um assunto passageiro, que não vão absorver. A maneira como será repassado esse conhecimento irá dizer se essa prática educativa deve buscar transformações ou a manutenção do público onde o campus está inserido. Não será apenas um conteúdo que vai determinar a direção, e sim a didática, o modo como o conhecimento é transmitido”, explicou Lima.

O professor reforça que discutir identidade cultural indígena no CAM ainda deixa muitos estudantes constrangidos ao exporem sua etnia e ao dizerem em que comunidade nasceram. “Muitos têm vergonha, mesmo com todas as características de indígenas. Alguns preferem ainda não se autodeclarar indígena”, disse. No IFRR, em 2018, a quantidade de alunos autodeclarados indígenas chegou a 19% dos 5.786 matriculados na instituição.

Então, o trabalho que o professor Lucas Lima desenvolve continua, e os alunos que sabem e conhecem a língua materna vão ensinando aos outros. Agora está em andamento o projeto de extensão Socializando com Música, no qual trabalham as músicas tradicionais indígenas e a cultura venezuelana. Outro projeto de extensão é o Registro das Músicas Tradicionais Indígenas por meio dos Saberes dos Alunos do IFRR/CAM.

 RORAIMA – Dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que Roraima é o estado com maior população autodeclarada indígena do País, 11%, com 49.637 indivíduos de várias etnias. Outro dado relevante é que, dos dez municípios brasileiros com as maiores proporções de população indígena, quatro estão em Roraima.

O maior percentual foi encontrado no Município de Uiramutã, 88,1% da população. Os demais são Normandia (56,9%), Pacaraima (55,4%) e Amajari (53,8%). O território indígena ocupa 46% das terras do Estado de Roraima, e a maior população indígena no estado é da etnia macuxi.

 

 

Rebeca Lopes
Fotos: Divulgação
Ascom/IFRR
10/5/19
 

 

 

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